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Fernando Pessoa
alias Alvaro de Campos
Passagem das horas (fragmento)
Trago dentro de meu coração, Como num cofre que se não pode fechar de cheio, Todos os lugares onde estive, Todos os portos a que cheguei, Tôdas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando, E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.
A entrada de Singapura, manhã subindo, côr verde, O coral das Maldivas em passagem cálida, Macau à uma hora da noite ... Acordo de repente ... Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô .. Ghi-... E aquilo soa-me do fundo de uma outra realidade ... A estatura norte-africana quase de Zanzibar ao sol ...
Dar-es-Salaam (a saída é dificil) ... Majunga. Nossi-Bé, verduras de Madagascar ... Tempestades em tôrno ao Guardafui ... E o Cabo da Boa Esperança nítido ao sol da madrugada ...
E a Cidade do Cabo com a Montanha da Mesa ao fundo ...
Vijaei por mais terras do que aquelas em que toquei ...
Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos ...
Experimentei mais sensações do que tôdas as sensações que
senti, Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que
sentir E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz.
A certos momentos do dia recordo tudo isto e apavoro-me,
Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados,
dêste auge, Desta estrada às curvas, dêste automóvel à beira de
estrada, dêste aviso, Desta turbulência tranqüila de sensações desencontradas,
Desta transfusão, desta insubsistência, desta
convergência iriada, Dêste desassossêgo no fundo de todos os cálices. Desta angústia no fondo de todos os prazeres, Desta saciedade antecipada na asa de tôdas as chávenas,
Dêste jôgo de cartas fastiento entre Cabo da Boa
Esperança e as Canárias.
Não sei se a vida é pouco ou demais para mim. Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na
inteligência, Consangüinidade com o mistério das coisas, choque Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
Ou se há outra significação para isto mais cômoda e
feliz.
Seja o que fôr, era melhor não ter nascido, Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a
ranger, A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no
chão, de sair Para fora de tôdas as casas, de tôdas as lógicas e de
tôdas as sacadas, E ir ser selvagem para a morte entre árvores e
esquecimentos, Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs, E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida
com o que eu penso, Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó
vida.
Cruzo os braços sôbre a mesa, ponho a cabeça sôbre os
braços, É preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as
lágrimas ... Por mais que se esforce por ter uma grande pena de mim,
não choro, Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca
... Que há de ser mim? Que há de ser mim?
Correram o bôbo a chicote do palácio, sem razão, Fizeram o mendigo levantar-se do degrau onde caíra. Bateram na criança abandonada e tiraram-lhe o pão das
mãos. Oh mágoa imensa do mundo, o que falta é agir ... Tão decadente, tão decadente, tão decadente ... Só estou bem quando ouço música, e nem então. Jardins do século dezoito antes de 89, Onde estais vós, que eu quero chorar de qualquer maneira?
Como um bálsamo que não consola senão pela idéa deque é
um bálsamo, A tarde de hoje e de todos os dias pouco a pouco,
monótona, cai.
Acenderam as luzes, cai a noite, a vida substitui-se, Seja de que maneira fôr, é preciso continuar a viver. Arde-me a alma como se fôsse uma mão, fìsicamente.
Estou no caminho de todo e esbarram comigo. Minha quinta na província, Haver menos que um comboio, uma diligência e a decisão de
partir entre mim e ti. Assim fico, fico ... Eu sou o que sempre quer partir, E fica sempre, fica sempre, fica sempre, Até à morte fica, mesmo que parta, fica, fica, fica ...
Torna-me humano, ó noite, torna-me fraterno e solícito.
Só humanitàrimente é que se pode viver. Só amando os homens, as ações, a banalidade dos
trabalhos, Só assim – ai de mim! –, só assim se pode viver. Só assim, ó noite, e eu nunca poderei ser assim!
Vi tôdas as coisas, e maravilhei-me de tudo, Mas tudo ou sobrou ou foi pouco – não sei qual – e eu
sofri. Vivi tôdas as emoções, todos os pensamentos, todos os
gestos, E figuei tão triste como se tivesse querido vivê-los e
não conseguisse, Amei e odiei como tôda gente, Mas para tôda a gente isso foi normal e instintivo, E para mim foi sempre a exeção, o choque, a válvula, o
espasmo:
Vem, ó noite, e apaga-me, vem e afoga-me em ti. O carinhósa do Além, senhora do luto infinito, Mágoa externa da Terra, chôro silencioso do Mundo. Mãe suave e antiga das emoções sem gesto, Irmã mais velha, virgem e triste, das idéias sem nexo,
Noiva esperando sempre os nossos propósitos incompletas,
A direção constantemente abandonada do nosso destino, A nossa incerteza pagã sem alegria, A nossa fraqueza cristã sem fé, O nosso budismo inerte, sem amor pelas coisas nem
êxtases, A nossa febre, a nossa palidez, a nossa impaciência de
fracos, A nossa vida, ó mãe a nossa perdida vida ...
Não sei sentir, não sei ser humano, conviver De dentro da alma triste com os homens meus irmãos na
terra, Não sei ser útil mesmo sentindo, ser práctico quotidiano,
nítido, Ter um lugar na vida, ter um destino entre os homens, Ter uma obra, uma fôrça, uma vontade, uma horta, Uma razão para descansar, uma necessidade de me distrair,
Uma cousa vinda diretamente da natureza para mim.
Por isso sê para mim materna, ó noite tranqüila ... Tu, que tiras o mundo ao mundo, tu que és a paz, Tu que não existes, que és só a ausência da luz, Tu que não és uma coisa, um lugar, uma essência, uma
vida, Penélope da teia, amanhã desfeita, da tua escuridão, Circe irreal dos febris, dos angustiados sem causa, Vem para mim, ó noite, estende para mim as mãos, E sê fescor e alívio, ó noite, sôbre a minha fronte ...
Tu, cuja vinda é tão suave que parece um afastamento, Cujo fluxo e refluxo de treva, quando a lua bafeja, Tem ondas de carinho morto, frio de mares de sonho, Brisas de paisagens supostas para a nossa angústia
excessiva ... Tu, pàlidamente, tu, flébil, tu, líquidamente, Aroma de morte entre flôres, hálito de febre sôbre
margens, Tu, rainha, tu, castelã, tu, dona pálida, vem ...
Sentir tudo de tôdas as maneiras, Viver tudo de todos os lados, Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo
tempo, Realizar em si tôda a humanidade de todos os momentos Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.
Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo, Eu torno-me sempre, mais tarde mais cedo, Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,
Seja uma flor ou uma idéa abstrata, Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus. E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo. São-me simpáticos os homens superiores porque são
superiores, E são-me simpáticos os homens inferiores porque são
superiores também, Porque ser inferior é diferente de ser suoperior, E por isso é uma superioridade a certos momentos de
visão. Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de
carácter, E simpatizo com outors pela sua falta dessas qualidades,
E com outros ainda simpatizo por simpatizar com êles, E há momentos absolutamente orgânicos em que êsses são
todos os homens. Sim, como sou rei absoluto na minha simpatia, Basta que ela exista para que tenha razão de ser. Estreito ao meu peito arfante, num abraço comovido, (No mesmo abraço comovido) O homem que dá a camisa ao pobre que desconhece, O soldado que morre pela pátria sem saber o que é pátria,
E o matricida, o fratracida, o incestuoso, o violador de
crianças. O ladrão de estradas, o salteador dos mares, O gatuno de carteiras, a sombra que espera nas vielas –
Todos são a minha amante predileta pelo menos um momento
na vida.
Beijo na bôca tôdas as prostitutas, Beijo sôbre os olhos todos os souteneurs, A mihna passividade jaz aos pés de todos os assassinos,
E a minha capa à espanhola esconde a retirada a todos os
ladrões, Tudo é a razão de ser da minha vida.
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